Phelcom 10 anos: uma trajetória entre tecnologia, ciência e impacto social

setembro 22, 2026
Gabriela Marques

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Médicos parceiros relembram experiências com Eyer em ações de saúde e pesquisas que ajudaram a ampliar o acesso ao diagnóstico e validar a tecnologia em diferentes contextos.

A Phelcom Technologies nasceu de um propósito claro: tornar a saúde visual mais acessível. A história da empresa começou com uma experiência pessoal de Diego Lencione, um dos fundadores, que acompanhou desde a infância o comprometimento da retina e da visão de seu irmão, Welber. Isso despertou seu interesse pela saúde visual e, ao lado de Flávio Paschoal Vieira e José Augusto Stuchi, deu origem ao desenvolvimento do Eyer.

Integrado a um smartphone, o retinógrafo portátil permite capturar imagens de alta qualidade da retina de forma rápida e sem a necessidade de dilatação da pupila. A tecnologia foi desenvolvida para contribuir com a prevenção, o diagnóstico e o acompanhamento de doenças que podem levar à deficiência visual grave e à cegueira. Essas condições atingem mais de 250 milhões de pessoas no mundo e, em mais de 75% dos casos, estão relacionadas à falta de prevenção e tratamento adequado.

Hoje, o Eyer já alcançou mais de duas milhões de pessoas no Brasil e no mundo e esteve presente em mais de 200 ações sociais, levando a tecnologia para perto de quem precisa. Ao longo dessa trajetória, também passou a integrar projetos de pesquisa em diferentes regiões e contextos, contribuindo para a produção de conhecimento científico.

Tecnologia a serviço de quem mais precisa

Se a inovação nasceu para ampliar o acesso à saúde visual, foi nas ações sociais que o Eyer encontrou alguns dos cenários mais desafiadores — e mais significativos — para cumprir esse propósito.

Ao longo dos últimos dez anos, o retinógrafo portátil esteve presente em iniciativas realizadas em regiões remotas do país, comunidades indígenas e grandes mutirões de saúde, aproximando o diagnóstico oftalmológico de pessoas que muitas vezes enfrentam barreiras geográficas e de acesso aos serviços especializados.

O Eyer foi utilizado, por exemplo, em expedições do barco-hospital Papa Francisco, atendimentos em reservas indígenas no Mato Grosso e ações voltadas a comunidades indígenas no Amazonas. Também participou de projetos da ONG Retina Global, com iniciativas no Quênia e em Sergipe, além de campanhas como o Maio Verde e ações da organização Doutores do Mundo e ONG Zoé.

Ação da ONG Retina Global no Quênia usou o Eyer para realizar os exames de fundo de olho.

Entre essas experiências, os mutirões de prevenção e diagnóstico do diabetes ganharam destaque por permitir o rastreamento de alterações na retina, como a retinopatia diabética, em um grande número de pessoas durante um único dia de atendimento.

Mutirão do Diabetes de Itabuna e de Blumenau

O Mutirão do Diabetes de Itabuna (BA), classificado pela International Diabetes Federation (IDF) como um dos maiores do mundo nessa categoria, foi uma das primeiras iniciativas sociais a incorporar o Eyer, em 2019.

Na época, o exame de fundo de olho era realizado de forma convencional, sem registro fotográfico — a utilização de imagens para o rastreamento de uma população tão numerosa ainda era uma experiência nova.

“Eu acredito que Deus manda as coisas no tempo certo. Mal sabíamos que, seis meses depois, o Brasil ia parar por causa de uma pandemia”, recorda o médico Rafael Andrade, presidente da ONG Unidos pelo Diabetes e coordenador do evento.

A chegada da Covid-19, em 2020, tornou inviável o modelo tradicional das campanhas, que dependia da presença de especialistas vindos de diferentes regiões do país.

“Antes da pandemia, eu contava com dez médicos especialistas. Em 2020, eu não sabia como faria, porque ninguém estava viajando de avião. Foi então que me lembrei da Phelcom. Pedi os equipamentos, eles enviaram e conseguimos realizar a campanha, com os médicos avaliando as imagens remotamente, pela nuvem e em tempo real. Fomos os únicos no país a realizar o mutirão naquele ano”, conta Andrade.

A experiência mostrou que a combinação entre o retinógrafo portátil e o EyerCloud, plataforma em nuvem para armazenamento e gerenciamento dos exames, poderia sustentar o atendimento mesmo sem a presença física de todos os especialistas.

O modelo também passou a ser utilizado em outras iniciativas, como o Mutirão do Diabetes de Blumenau (SC). “Com o mutirão cancelado em 2020, usamos o Eyer para realizar os atendimentos nos ambulatórios e postos de saúde de Blumenau durante todo o ano. Foi uma forma de manter o acompanhamento dos pacientes mesmo naquele período”, relembra o oftalmologista e organizador da campanha, Fernando Penha.

COO da Phelcom, Flávio Pascoal Vieira, e o presidente da ONG Unidos pelo Diabetes, Rafael Andrade, no Mutirão do Diabetes de Itabuna 2023.

Da imagem à inteligência artificial

Nos anos seguintes, a incorporação do EyerMaps acrescentou uma nova etapa ao fluxo. A inteligência artificial passou a auxiliar na identificação de possíveis alterações retinianas e a direcionar os casos que precisavam de avaliação especializada.

Essa etapa ganhou um apelido: “VAR”, em referência ao recurso utilizado no futebol para revisar lances. “A gente fez uma brincadeira: quando a IA indica alguma alteração no fundo do olho, o paciente vai para o ‘VAR’. Um médico, presencialmente ou de forma remota, avalia a imagem e valida o resultado”, contam.

O modelo também permitiu tornar o fluxo de atendimento mais ágil, já que a maioria dos pacientes não apresenta alterações na retina. “O paciente chega, não precisa dilatar a pupila, fazemos a fotografia com o Eyer e, se a IA não identifica nenhuma alteração, ele segue para as outras etapas do atendimento. Em Blumenau, todo esse percurso leva cerca de 40 minutos”, explica Penha.

Ao longo dos anos, as experiências de campo também se transformaram em uma fonte de aprendizado para a própria Phelcom. Novas versões do equipamento, recursos e formas de utilização foram incorporados às ações, aproximando o desenvolvimento da tecnologia das necessidades observadas no atendimento à população.

“A Phelcom, com o Eyer, promoveu uma verdadeira revolução tecnológica nos mutirões e nos ajudou a atravessar um período sombrio sem abandonar os pacientes. Ao longo dos anos, a empresa incorporou novas versões e recursos, muitos deles desenvolvidos e aprimorados a partir das experiências e dos treinamentos realizados nessas campanhas. O mutirão se tornou um verdadeiro campo de inovação, onde tecnologia e solidariedade caminham juntas. Foi muito bacana acompanhar esse processo e ver como ele contribuiu para democratizar o acesso à saúde”, afirma Andrade.

Da retinografia à digitalização do atendimento

Em 2019, ao participar pela primeira vez do mutirão, o cofundador e COO da Phelcom, Flávio Paschoal Vieira, presenciou uma cena que não saiu mais da sua cabeça: em uma pequena sala, duas voluntárias trabalhavam cercadas por pilhas de prontuários em papel.

A experiência despertou a busca por uma solução para tornar o fluxo de atendimento mais organizado e eficiente. Em 2023, a Phelcom, em parceria com a ONG Unidos pelo Diabetes, desenvolveu um aplicativo para digitalizar a jornada do paciente durante o mutirão.

A ferramenta permite acompanhar, em tempo real, o andamento dos atendimentos por meio do “mutirômetro”, painel exibido em uma televisão com informações como o número de pessoas atendidas e o tempo médio de permanência em cada etapa.

Mutirômetro exibiu dados coletados pelo aplicativo em tempo real durante o Mutirão do Diabetes de Itabuna 2023.

“Com isso, a gente promoveu uma segunda revolução dentro dos mutirões. A primeira foi a implementação da retinografia, da telemedicina e da inteligência artificial”, afirma Andrade.

A digitalização também facilitou a organização e a análise dos dados coletados durante o evento, que abrangem diferentes áreas que a diabetes pode afetar, como olhos, pés e coração. Com as informações estruturadas, tornou-se possível acompanhar a jornada dos pacientes de forma integrada e criar uma base de dados que passou a contribuir para o desenvolvimento de pesquisas científicas.

Pesquisas científicas

As imagens capturadas pelo Eyer durante o Mutirão do Diabetes de Itabuna de 2022 foram utilizadas para criar o mBRSET: um novo conjunto de dados de imagens de retina obtidas com uma câmera portátil em cenários reais de alta demanda. A base reúne 5.164 imagens de retina de 1.291 pacientes, com diferentes perfis demográficos. O artigo A portable retina fundus photos dataset for clinical, demographic, and diabetic retinopathy prediction, sobre o mBRSET, foi publicado pela revista Scientific Data, do grupo Nature.

Para avaliar a utilidade da base, os pesquisadores utilizaram modelos avançados de deep learning em tarefas de benchmarking. Os resultados demonstraram alta precisão em aplicações clínicas, como a identificação de retinopatia diabética e edema macular, além da previsão de características demográficas.

O mBRSET também se destaca por ampliar a representatividade da população brasileira na pesquisa oftalmológica. A base é o primeiro conjunto de dados público composto por imagens obtidas com câmeras portáteis e reúne registros coletados em condições reais de alta demanda, acompanhados de informações demográficas detalhadas.

Com isso, oferece uma referência para pesquisas e para o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial aplicadas à oftalmologia, especialmente em populações de países de baixa e média renda, ainda pouco representadas em bases desse tipo.

Outra pesquisa, com dados coletados em Itabuna e Blumenau avaliou o desempenho do EyerMaps na detecção de retinopatia diabética em cenários reais de triagem. O estudo analisou as imagens de 1.257 pacientes.

O trabalho, intitulado Real-world performance of an offline, automatic algorithm for diabetic retinopathy detection embedded in a handheld smartphone-based retinal camera, on two ethnically diverse populations, foi apresentado na Association for Research in Vision and Ophthalmology (ARVO), em 03 de maio de 2026.

A produção científica envolvendo o Eyer também se estende a outras áreas. Entre os estudos, estão uma pesquisa que investigou alterações retinianas em pacientes com Covid-19 e outra que avaliou a eficiência de uma câmera portátil de baixo custo, com inteligência artificial integrada, na triagem da retinopatia diabética em Sergipe. Atualmente, o Projeto Ártemis utiliza imagens obtidas com o Eyer para investigar possíveis marcadores associados ao risco de acidente vascular cerebral (AVC).

Pesquisa também no campo da DMRI

Penha participou de diferentes trabalhos científicos envolvendo o Eyer e, mais recentemente, conduziu uma pesquisa sobre a prevalência da Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) em pessoas com 60 anos ou mais na região de Blumenau (SC), em parceria com o pesquisador Vinicius Ostetto.

Oftalmologista e organizador do Mutirão do Diabetes de Blumenau (SC), Fernando Penha.

O estudo está na fase final de avaliação dos dados e reúne cerca de 1,4 mil imagens de mais de 500 olhos. O trabalho também avaliou o desempenho do algoritmo e contribuiu para seu treinamento na identificação de possíveis sinais da doença nas imagens de retina.

Os resultados iniciais foram apresentados no XIX Congresso Sul-Brasileiro de Oftalmologia, realizado em maio de 2026, e receberam o prêmio de melhor trabalho entre 150 estudos inscritos.

Para Penha, a experiência representa uma via de mão dupla, na qual a pesquisa científica contribui tanto para a produção de conhecimento quanto para o aprimoramento das próprias ferramentas desenvolvidas pela Phelcom. “É muito bacana poder fazer pesquisa, que é algo de que a gente gosta, e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento dos softwares junto com a empresa”, afirma.

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