Como a retina pode mudar o tratamento do diabetes

julho 10, 2026
Gabriela Marques

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Especialista explica como o uso do retinógrafo portátil Eyer na endocrinologia ajuda a identificar riscos precocemente, orientar condutas e preservar a visão de pessoas com diabetes.

Retina com retinopatia diabética

O diabetes está entre as doenças crônicas que mais crescem no mundo e representa um dos principais desafios para a saúde pública. No Brasil, 12,9% da população convive com a condição, que pode afetar diversos órgãos e sistemas quando não é adequadamente controlada.

Entre as complicações mais preocupantes está a retinopatia diabética, causada por alterações nos vasos sanguíneos da retina e um dos principais motivos da perda visual evitável em adultos. O problema é que, em muitos casos, ela evolui silenciosamente, sem apresentar sintomas nas fases iniciais.

Nesse cenário, a retinografia tem se consolidado como uma importante aliada na prevenção, no diagnóstico precoce e no acompanhamento da saúde ocular de diabéticos. Ao permitir a visualização detalhada da retina, o exame auxilia na identificação de alterações antes mesmo de comprometer a visão.

Para a endocrinologista e oftalmologista Flávia Godinho, acompanhar a saúde dos olhos deve fazer parte da rotina de cuidado dos pacientes com diabetes. “A incorporação da retinografia à prática clínica tem potencial para mudar condutas, ampliar a adesão ao tratamento e impactar diretamente o prognóstico e a qualidade de vida dessas pessoas”, ressalta.

A analista comercial da Phelcom, Daniele Oliveira, a oftalmologista e endocrinologista Flávia Godinho e a analista de pós-venda da Phelcom, Maiara Guiliano, durante o evento Diabetes 360º, realizado de 29 a 31 de maio, em São Paulo (SP).

Além da glicemia

Um dos aspectos menos conhecidos do tratamento do diabetes é que nem sempre reduzir a glicemia o mais rápido possível é a melhor estratégia. Em pessoas que já apresentam retinopatia diabética, uma queda muito brusca dos níveis de açúcar no sangue pode agravar temporariamente as lesões na retina e aumentar o risco de perda visual.

Flávia explica que é justamente nesse contexto que a retinografia se torna uma ferramenta fundamental para orientar a conduta médica. “Precisamos entender primeiro como está a retina para definir a velocidade e a segurança desse controle glicêmico”, afirma.

A médica relembra um caso que ilustra bem essa situação. “Já tive paciente que chegou ao consultório dizendo: ‘doutora, quando minha glicose era 400 eu enxergava tudo. Agora que ela está em 110, estou praticamente cega. O que aconteceu?’. E o que havia mudado foi justamente o início do tratamento do diabetes”, conta.

Segundo ela, em alguns casos, pode ser necessário até um ano para reduzir a glicose de forma segura. “Fazemos isso gradualmente, acompanhando com exames de retina e em conjunto com o oftalmologista. Se percebemos qualquer sinal de piora, desaceleramos o processo e reavaliamos a estratégia.”

Nesse cenário, a retinografia ajuda o endocrinologista a equilibrar dois objetivos igualmente importantes: controlar a doença e preservar a visão.

Diabetes e caneta emagrecedora

O debate sobre a relação entre diabetes e caneta emagrecedora ganhou força nos últimos anos com a popularização de medicamentos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida. Embora essas medicações tenham demonstrado benefícios importantes no controle glicêmico e na perda de peso, a especialista alerta para a necessidade de acompanhamento médico.

“Não existe comprovação científica de que causem alterações visuais ou levem à cegueira. O problema é quando o paciente com diabetes reduz a glicose muito rapidamente e já possui uma retinopatia instalada”, explica.

Flávia observa que esse cuidado vale não apenas para as chamadas canetas emagrecedoras, mas para qualquer estratégia capaz de provocar uma queda acentuada da glicemia, como insulina, determinados medicamentos orais, dietas muito restritivas ou jejum prolongado. “Em alguns casos, o oftalmologista enfrenta grande dificuldade para controlar a progressão da retinopatia diabética depois que esse processo é iniciado”.

Por isso, a avaliação da retina antes e durante o tratamento pode fazer diferença. “A retinografia é um exame simples, não invasivo e que pode mudar completamente a forma como conduzimos o tratamento”, pontua.

A endocrinologista lembra que as consequências da perda visual vão muito além da saúde ocular. “Estamos falando de independência, qualidade de vida, capacidade de trabalhar e de realizar atividades simples do dia a dia. Quando conseguimos identificar o risco antecipadamente, temos a oportunidade de proteger a visão e mudar o prognóstico dessa pessoa para o resto da vida”.

Uma janela para a saúde

Endocrinologista Flávia Godinho em palestra no evento Diabetes 360, que ocorreu de 29 a 31 de maio, em São Paulo

Em palestra no evento Diabetes 360º, realizado de 29 a 31 de maio, em São Paulo (SP), a médica Flávia Godinho abordou o papel da retinografia na prática clínica do endocrinologista.

Além da identificação da retinopatia diabética, a médica ressalta que a retinografia oferece informações valiosas sobre a saúde vascular do organismo e pode ajudar a detectar sinais precoces de diversas doenças antes mesmo do surgimento de sintomas.

“Muitas dessas alterações aparecem primeiro nos pequenos vasos. E a retina é o único local do corpo onde conseguimos visualizar diretamente vasos sanguíneos e capilares sem procedimentos invasivos. Isso nos permite observar modificações relacionadas à hipertensão, aterosclerose, inflamações e outras condições que afetam a microcirculação”, esclarece.

Segundo a especialista, esse é um aspecto que ainda recebe pouca atenção na prática clínica. “Frequentemente avaliamos sono, alimentação, atividade física e diversos outros aspectos da saúde, mas os olhos acabam ficando em segundo plano. No entanto, eles podem fornecer informações extremamente importantes sobre o estado geral do paciente”.

Flávia também lembra que o endocrinologista acompanha uma população frequentemente exposta a doenças associadas ao envelhecimento. Nesses casos, a observação da retina pode auxiliar na identificação precoce de condições como glaucoma, degeneração macular relacionada à idade (DMRI) e outras doenças oculares potencialmente graves.

“Quando incorporamos a avaliação da retina ao acompanhamento de rotina, conseguimos identificar problemas mais cedo e encaminhar o paciente para o tratamento adequado antes que ocorram perdas irreversíveis. O olho tem muito a agregar à endocrinologia”, acredita.

Uma nova ferramenta para o endocrinologista

Flávia observa que a retinografia ainda é um exame pouco explorado fora da oftalmologia, principalmente porque muitos especialistas não receberam treinamento específico para avaliar o fundo de olho durante a formação médica.

Nesse contexto, tecnologias como o retinógrafo portátil Eyer2 podem facilitar a incorporação desse cuidado ao consultório. “O Eyer torna esse exame muito mais acessível para o endocrinologista. A captura das imagens é simples, rápida e pode ser realizada por profissionais de saúde treinados. Em poucos instantes, o médico já tem acesso às imagens e consegue discutir os achados com o paciente durante a própria consulta”, ressalta.

O Eyer2 captura imagens de alta definição dos segmentos anterior e posterior do olho em poucos minutos e sem necessidade de midríase. Integrado ao EyerCloud, plataforma online de gerenciamento de exames, permite armazenar, acessar e acompanhar as imagens ao longo do tempo. Já a inteligência artificial EyerMaps auxilia na identificação de possíveis alterações retinianas, funcionando como apoio à avaliação clínica.

Além do apoio clínico, a visualização das imagens também fortalece o vínculo entre médico e paciente. “Quando mostramos a imagem e comparamos com uma retina saudável, ele entende o que está acontecendo. Isso desperta um interesse maior pelo tratamento e pelo acompanhamento oftalmológico”.

Imagem de retina com retinopatia diabética capturada pelo retinógrafo portátil Eyer.

Imagem de retina com retinopatia diabética capturada pelo retinógrafo portátil Eyer.

Retinografia realizada com o retinógrafo portátil Eyer. A IA EyerMaps destaca as regiões com possíveis alterações associadas à retinopatia diabética.

Saúde pública

A incorporação de tecnologias de imagem à atenção primária e ao acompanhamento de pacientes crônicos pode representar um avanço importante para a saúde ocular no Brasil, especialmente diante dos desafios de acesso ao atendimento oftalmológico especializado no sistema público.

De acordo com Flávia, uma das principais vantagens do Eyer está na possibilidade de realizar uma triagem rápida e acessível diretamente nos serviços de saúde que já acompanham pacientes com diabetes, hipertensão e outras doenças crônicas, como o Programa Hiperdia. “Muitas vezes, o paciente leva meses ou até mais de um ano para conseguir uma consulta com o oftalmologista. Enquanto isso, a doença continua evoluindo. Ter acesso à imagem da retina no próprio local de atendimento pode ajudar a identificar quem realmente precisa de encaminhamento prioritário”, afirma.

A especialista destaca que essa necessidade se torna ainda mais evidente no acompanhamento de pessoas com diabetes avançado, já que a definição da velocidade ideal para o controle glicêmico depende justamente da avaliação da retina. “O Eyer é uma ferramenta que pode contribuir muito para a prevenção e para uma gestão mais eficiente da saúde pública”, conclui.

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