O exame do fundo do olho, conhecido como retinografia, é essencial para o diagnóstico e acompanhamento de diversas doenças oftalmológicas, como a retinopatia diabética. No entanto, em muitos países de baixa e média renda, o acesso a equipamentos tradicionais de imagem retiniana é limitado devido ao alto custo e à necessidade de infraestrutura específica. Além disso, a disponibilidade de bases de imagens referenciais para médicos, pesquisadores e clínicos ainda é bastante reduzida nesse tipo de equipamento.
Nesse cenário, os retinógrafos portáteis, como o Eyer, surgem como uma solução mais acessível e econômica para triagem e gerenciamento ocular. Acoplado a um smartphone, o Eyer captura imagens de alta qualidade da retina em poucos minutos, sem necessidade de dilatação da pupila.
Esses dispositivos permitem o uso em diferentes contextos além dos ambientes hospitalares convencionais, como mutirões de saúde e consultas de telemedicina. Adicionalmente, registram metadados detalhados que costumam estar ausentes em outros conjuntos de dados, incluindo idade, sexo, tempo de diagnóstico do diabetes, tratamentos e comorbidades.
Recentemente, a revista Scientific Data, do grupo Nature, publicou o artigo “A portable retina fundus photos dataset for clinical, demographic, and diabetic retinopathy prediction”, que apresenta o mBRSET: um novo conjunto de dados de imagens de retina capturadas com câmeras portáteis em cenários reais de alta demanda. Dentre os autores do estudo estão o oftalmologista Fernando Korn Malerbi e o CEO da Phelcom, José Augusto Stuchi.
Imagens do fundo do olho capturadas com o Eyer durante o Mutirão do Diabetes de Itabuna, em 2022, com destaque para o mapa de atenção gerado pelo EyerMaps, indicando possíveis anomalias.
mBRSET
Ao todo, o mBRSET reúne 5.164 imagens de retina de 1.291 pacientes com diferentes perfis, capturadas com o Eyer durante o Mutirão do Diabetes de Itabuna, na Bahia, em 2022. Reconhecido como um dos maiores eventos do mundo em prevenção e tratamento do diabetes, o mutirão atende anualmente centenas de pacientes, oferecendo uma ampla gama de exames, como avaliação do fundo do olho, e encaminhamentos para tratamentos específicos.
Exame realizado com o Eyer durante o Mutirão do Diabetes de Itabuna, em 2022.
Para avaliar a utilidade do mBRSET, foram utilizados modelos avançados de deep learning para benchmarking. Os resultados demonstraram alta precisão em tarefas clínicas, como o diagnóstico de retinopatia diabética e edema macular, além da previsão de dados demográficos.
Uma análise detalhada das imagens revelou que, entre as 4.885 avaliadas, 3.759 (76,79%) não apresentavam sinais de retinopatia diabética (RD). A RD não proliferativa leve foi identificada em 272 imagens (5,56%), enquanto a forma moderada estava presente em 570 imagens (11,64%). Além disso, 82 imagens (1,67%) mostraram sinais de RD não proliferativa grave e 212 (4,33%) foram classificadas como RD proliferativa. O edema macular também foi um achado relevante, presente em 427 imagens (8,69%).
Marco para a saúde ocular e pesquisa científica
A importância do conjunto de dados mBRSET pode ser definida em cinco aspectos fundamentais:
Representatividade da população brasileira
O mBRSET contribui para reduzir a sub-representação de populações de países de baixa e média renda nos conjuntos de dados oftalmológicos, incluindo indivíduos de diversas origens étnicas no Brasil.
Primeiro dataset público com imagens de câmeras portáteis
Este é o primeiro conjunto de dados disponível publicamente que apresenta imagens capturadas com retinógrafos portáteis, refletindo a crescente adoção dessa tecnologia em ambientes com poucos recursos.
Coleta em cenários reais e de alta demanda
As imagens foram obtidas em ambientes clínicos com grande fluxo de atendimento, garantindo que o dataset represente os desafios reais da triagem e do gerenciamento ocular.
Inclusão de dados demográficos detalhados
O mBRSET vai além das imagens retinianas, incluindo informações como sexo, nível de escolaridade e status de seguro de saúde. Isso permite que pesquisadores avaliem a equidade e a generalização dos algoritmos de inteligência artificial em diferentes subpopulações.
Base para o desenvolvimento de IA aplicada à oftalmologia
O conjunto de dados se torna um recurso essencial para a criação e validação de algoritmos de inteligência artificial, contribuindo para a automação da triagem, diagnóstico e monitoramento da retinopatia diabética e de outras doenças oculares.
Stuchi enfatiza o impacto do mBRSET para a comunidade científica e médica. “A criação deste conjunto de dados representa um marco significativo na saúde ocular, especialmente para regiões com recursos limitados. Ao disponibilizar imagens de alta qualidade capturadas com dispositivos portáteis, ampliamos as possibilidades de pesquisa e desenvolvimento de soluções em IA que podem transformar o diagnóstico e o tratamento de doenças oculares”.
Da esquerda para a direita: Diego Lencione, cofundador e CTO da Phelcom, Flavio Pascoal Vieira, cofundador e COO da Phelcom, Paulo Prado, coordenador de Mobile Software e IA da Phelcom, e José Augusto Stuchi, cofundador e CEO da Phelcom, durante o Mutirão do Diabetes de Itabuna, em 2022.
Eyer
O Eyer é um retinógrafo portátil que funciona acoplado a um smartphone e realiza exames de retina de alta qualidade, em poucos minutos e sem a necessidade de dilatação da pupila.
A tecnologia apoia no diagnóstico de mais de 50 doenças, dentre elas glaucoma, catarata, retinopatia diabética, DMRI, retinoblastoma, retinopatia hipertensiva, retinopatia da prematuridade e toxoplasmose ocular.
Recentemente, chegou ao mercado o Eyer2 com novas ferramentas embarcadas e funcionalidades aprimoradas. O equipamento possibilita a detecção de diversas doenças e condições do segmento anterior do olho, como blefarite e demais alterações de cílios, disfunção das glândulas meibomianas, hordéolos, tumores conjuntivais, tumores palpebrais, catarata avançada, corpo estranho, queimaduras, lesões na córnea e ceratites em geral causadas por olho seco, lente de contato, infecções e úlceras, dentre outros.
Sobre a Phelcom
A Phelcom Technologies é uma medtech brasileira sediada em São Carlos, interior de São Paulo. A história da empresa começou em 2016, quando três jovens pesquisadores – um físico, um engenheiro eletrônico e um engenheiro de computação (PHysics, ELetronics, COMputing) – criaram um retinógrafo portátil integrado a um smartphone.
O primeiro protótipo da Phelcom foi inspirado pela experiência pessoal de um dos sócios, Diego Lencione, cujo irmão enfrentou uma grave condição que comprometeu severamente sua visão desde a infância.
Em 2019, a Phelcom lançou no mercado brasileiro o seu primeiro produto: o retinógrafo portátil Eyer. Cinco anos depois, lançou o Eyer2, uma plataforma de exames visuais que permite realizar registros dos segmentos posterior e anterior com alta qualidade de imagem.
Atualmente, a tecnologia da Phelcom já beneficiou mais de duas milhões de pessoas no Brasil e em diversos países, como Estados Unidos, Japão, Chile, Colômbia e Emirados Árabes, sendo utilizada também em mais de 100 ações sociais.